Abertura de novas empresas volta a crescer; Veja tendências do pós-pandemia

21/07/2020

Publicitária de formação, experiente em atendimento e apaixonada por doces, a paulistana Gabriela Yokoyama reuniu todas essas vantagens em seu primeiro negócio. Durante a pandemia, após perder seu emprego de vendedora numa companhia telefônica, ela e o namorado passaram a vender bolos caseiros para conseguir uma renda. Assim como ela, outros muitos brasileiros estão empreendendo para sair da crise.

Depois de um leve recuo nos primeiros meses de isolamento social, conforme apontou o boletim quadrimestral Mapa das Empresas, do Ministério da Economia, a atividade empreendedora voltou a crescer. Em junho, com o início da reabertura, mais de 264 mil empresas foram criadas no Brasil, de acordo com a pasta. Foram cerca de 61 mil a mais do que no mês anterior e por volta de 22 mil a menos do que em março, antes do impacto da quarentena.

Conforme mostrou o relatório, nos primeiros meses de restrições à circulação de pessoas, houve uma desaceleração na criação de firmas. Em abril, foram 85 mil novos negócios a menos do que em março. Para os pesquisadores, apesar de o dado apontar uma maior cautela dos empreendedores frente à crise do coronavírus, o mercado permaneceu aquecido.

“A pesquisa mostra que, a despeito de todos os problemas, o brasileiro continua empreendendo como forma de enfrentar a crise”, disse André Santa Cruz, diretor do Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração (Drei).

Ainda de acordo com o relatório, ao longo de todo o primeiro quadrimestre de 2020, foram abertas mais de um milhão de firmas, o que mostra um crescimento de pouco mais de 1% em relação ao período anterior. Ao mesmo tempo, foram fechadas 351 mil empresas, ou 6% a menos do que no último quadrimestre de 2019. 

Mesmo que os resultados revelem um saldo positivo de 680 mil empresas abertas, com um número total de 18,4 milhões de negócios ativos no país, ainda é cedo para avaliar os impactos da pandemia na atividade empreendedora. Isso porque os dados não consideram os meses de maio a agosto, que serão divulgados no próximo boletim. Até agora, porém, é possível notar que maio e junho já recuperaram o patamar de meses como fevereiro.

Segundo o diretor superintendente do Sebrae de São Paulo, Wilson Poit, períodos de crise costumam gerar oportunidades – e o chamado empreendedorismo por necessidade. “No mês de junho, houve a abertura de muitos pequenos negócios, o que trouxe gente interessada em crédito, orientação e inclusão digital”, conta.

Tendências

Entre janeiro e junho deste ano, o número de pessoas inscritas nos cursos do Sebrae já superou o volume do ano passado inteiro e atingiu um recorde de 1,5 milhão. Entre os principais temas procurados pelos empreendedores, estão o comércio digital, o marketing para redes sociais e formas de implantar serviços como as entregas.

A professora do MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV), Maria Candida Torres, explica que a implementação de realidade aumentada, inteligência artificial, biometria e outras ferramentas do universo digital no ambiente de negócios proporcionam uma transformação mais rápida e profunda do que qualquer outra geração já tenha testemunhado. E a pandemia, segundo ela, acelerou ainda mais esse processo.

“O empreendedor começa a perceber que o cliente não existe só fisicamente, que ele está consumindo em janelas pelas quais ele não comprava antes. O consumidor está em todo lugar e está repensando o consumo dele”, analisa Torres.

Nesse sentido, os pequenos e médios empresários já estão se adaptando às tendências e procuram as áreas mais aquecidas para iniciar o próprio negócio, explica o diretor do Sebrae. “Tem muita gente fazendo nossos cursos para aprender a vender pelo WhatsApp, reduzir custos, negociar com fornecedores e aprender novas formas de se relacionar com o cliente”, relata.

Gabriela logo percebeu essa necessidade. Além de montar um instagram caprichado, com fotos tendadoras de bolos e doces, passou a fazer vendas pelo WhatsApp e anunciar seus produtos em grupos do Facebook. E na hora de decidir que ramo seguir, foi certeira: o segmento de alimentos prontos para consumo tem sido um dos mais aquecidos durante a quarentena e é apontado como tendência pelos especialistas.

"Meus amigos sempre me pediam para fazer brigadeiros. Na quarentena, para passar o tédio, comecei a fazer bolos para pessoas da família. Logo, percebi que poderia vender", conta a publicitária e confeiteira. 

Além do setor de alimentação e bebidas, os ramos mais procurados pelos empreendedores, de acordo com Poit, são o farmacêutico, o de supermercados, serviços de petshop, serviços de educação física à distância, e até comércio de itens de informática e casa e construção. Outro destaque feito pelos especialistas, são as tendências de consumo mais sustentáveis e locais.

“Os intermediários estão perdendo um pouco nesse processo. As pessoas têm preferido comprar dos pequenos, dos negócios locais, os próprios empreendedores têm se esforçado para fazer essa transação mais direta”, conta a professora. 

É possível, para ela, que as grandes marcas passem a enfrentar a infidelidade dos clientes, que agora vão optar pelo melhor produto na relação entre custo e benefício. “É fundamental, nesse momento, entender não só as necessidades e desejos, como também os medos do cliente para entregar um produto que agregue valor e fidelizar esse consumidor”, diz.

Empreender é preciso

Entre as empresas abertas no Brasil, se destaca o número de microempreendedores individuais, os MEI. De acordo com o Portal do Empreendedor, do governo federal, o número de empresários nessa categoria ultrapassou a marca dos 10 milhões em abril deste ano, em plena pandemia do coronavírus.

O movimento pode indicar que os muitos trabalhadores que perderam o emprego durante a crise agora procuram novas formas de obter renda. Motoqueiros que entregam encomendas de aplicativos como o iFood e o Rappi, por exemplo, criam uma MEI para serem pagos pelas empresas.

É o caso de Gabriela. Além de nunca ter conseguido atuar na área de formação, ela não conseguiu sequer cumprir o período de experiência na empresa em que trabalhava como vendedora. Agora, ela espera abrir um CNPJ e regularizar as vendas. 

"Penso em formalizar minha empresa em breve. Nosso próximo passo que é ter uma maquininha de cartão e, quem sabe, daqui a algum tempo ter um espaço próprio para a produção, aumentar o catálogo. Meu objetivo é conseguir viver da venda de bolos", conta.

Não era esse o plano A de Gabriela. E, assim como ela, muitos outros abrem empresas por falta de escolha. “No Brasil, nós somos empreendedores por necessidade, não por oportunidade”, explica a professora Torres. Na opinião dela, fornecer capacitação e oportunidades para esse empreendedor menor vai ser um ponto chave neste momento. 

Já o diretor do Drei, André Santa Cruz, enxerga com bons olhos o crescimento dos MEIs durante a pandemia. Para ele, o número demonstra uma maior formalização do mercado. “Isso demonstra o sucesso das políticas públicas. São pessoas que, historicamente, estavam na informalidade e agora têm a chance de buscar mais proteção e direitos”, afirma.

Porém, uma das limitações para muitos trabalhadores aderirem a MEI é o pagamento mensal de cerca de R$ 58,25. Pode parecer pouco, mas muitos preferem continuar na informalidade para não ter que pagar esse tipo de imposto. Isso impacta diretamente no caixa do governo.

Porém, assim como Santa Cruz, o diretor do Sebrae acredita que o crescimento de empresas continuará sendo uma tendência global. “Cada vez mais, assim como na Europa, nos Estados Unidos e Japão, vão se fortalecer as pequenas e médias empresas na cadeia produtiva. Eu vejo o copo meio cheio. Tem um lado positivo nisso, que é a pessoa deixar de ser um caçador de emprego e passar a ter mais liberdade, equilíbrio e renda”, comenta Poit.

Foto: Campaign Creators/Unsplash

Fonte: Manuela Tecchio, do CNN Brasil Business, em São Paulo

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