O varejo de nicho pode gerar grandes volumes

04/10/2017

Um problema pessoal pode se tornar um novo negócio? Para Tania Gomes, fundadora do e-commerce de sapatos 33e34, a resposta é definitivamente sim.

Em 2011, ela procurava uma sandália prata para usar durante a festa de ano novo.

Uma tarefa simples, se Tania não calçasse sapatos de tamanho 33, que são difíceis de serem encontrados em lojas convencionais.

Em média, apenas 5% dos estoques do varejo são compostos por números inferiores a 35.

Após horas de procura, ela optou por um sapato da seção infantil. “Não foi uma compra feliz”, afirma Tania.

Desde esse dia, Tania e o marido, Thiago Luz, começaram a planejar a abertura de um e-commerce especializado em calçados para mulheres com os pés pequenos.

O projeto começou a ganhar forma em 2015, quando o casal vendeu a agência de marketing digital que haviam fundado para um grupo estrangeiro.

Por obrigação contratual, eles não podiam realizar trabalhos online durante seis meses. O casal passou esse tempo pesquisando as oportunidades na área calçadista.

Na época, Tania encontrou a pesquisa Azimute720, realizada pela agência Focal. Uma revelação do levantamento é que há no país cinco milhões de mulheres que calçam 33 e 34 e que cada consumidora compra entre 5 e 8 pares por ano.

Foi quando constatou que existiam mulheres que enfrentavam problemas similares aos seus que não estavam sendo bem atendidas. Foi o empurrão necessário para abertura da loja online 33e34, que vende exclusivamente os dois tamanhos. 

“Não é mercado pequeno, temos que desmistificar isso”, afirma Tania. “Esse mercado tem o potencial de vender 25 milhões de pares por ano”

Para apostar em segmento tão específico, ela teve que negociar diretamente com os fabricantes. Alguns achavam que o modelo de negócio não seria bem-sucedido.

“O comércio não compra esses números porque a procura é menor”, afirma Tania. “O varejo acaba ditando o ritmo de produção da indústria.”

A empresária provou que eles estavam errados. Em pouco mais de dois anos, além de comercializar mais de 300 modelos de diversas empresas, a 33e34 tem sua marca própria. 

Há um ano, a empresa montou a primeira loja física em São Paulo e já pensa em expandir para novos endereços.

“Quero dar a essas consumidoras uma experiência de compra que nunca tiveram: a possibilidade de experimentar vários de modelos”, afirma Tania. “Algo que é impossível para elas em uma loja tradicional”

A 33e34 passou por três rodadas de investimento e deve faturar R$ 3 milhões este ano.

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TANIA GOMES, FUNDADORA DA 33E34

PÉS GRANDES

Do outro lado da tabela de numeração está a Sapato Grande, e-commerce que vende calçados masculinos a partir do número 44. 

Os irmãos Marcio e Antonio Figueiredo, da Sapato Grande, também tem uma tradição no varejo. Desde 1976, a família administra a loja Calçados Manuel, localizada na região central da capital paulista. 

Com a experiência de anos na área, eles notaram que havia poucas opções para homens que calçavam tamanhos grandes. Assim como no caso dos modelos femininos, apenas 5% dos estoques são destinados à numeração masculina de tamanhos grandes.

Os irmãos decidiram criar o e-commerce para suprir essa demanda. “É muito mais fácil para os clientes irem direto a uma loja online específica, do que rodar as lojas em busca do tamanho”, afirma Antonio Figueiredo.

“Além disso, não são todas as cidades brasileiras que têm lojas com uma numeração que vai do tamanho 44 ao 48.”

O Sapato Grande entrou no ar em julho deste ano e já superou a expectativa inicial dos irmãos. Nos próximos anos, eles esperam diversificar os produtos do site e criar uma loja física para comercializar exclusivamente numerações grandes.

A pioneira e líder de vendas nesse segmento é a Eurico, "a casa dos grandes sapatos", fundada em 1938.

NOVOS NICHOS

Empresas que apostam em nichos não são nenhuma novidade, mas a internet trouxe novas possibilidades.

De acordo com  Gustavo Carrer, consultor do Sebrae São Paulo, o marketing nas mídias sociais consegue atrair públicos específicos que estão dispersos geograficamente.

Para os empresários que, assim como Tania Gomes e os irmãos Figueiredo, estão pensando em apostar em segmentos específicos, Carrer afirma que o primeiro passo é fazer uma pesquisa para dimensionar o tamanho do mercado.

“É preciso que o nicho seja grande o suficiente para viabilizar o negócio”, afirma.

 O consultor acredita que, em vez de segmentações pelo perfil do consumidor que são considerados nichos mais tradicionais, cada vez mais novas oportunidades irão surgir para negócios que que focarem nos hábitos dos consumidores, ou seja, nas tribos.

Um dos exemplos citados por Carrer é uma empresa que se especializou em vender roupas que atendam as necessidades de triatletas.

Quem está pensando em abrir uma empresa voltada para um nicho, deve investir também na qualidade e personalização dos produtos. “O nível de exigência é muito maior nos segmentos especializados”, diz Carrer.

 FOTOS: Divulgação

 

Fonte: Diário do Comércio - Thais Ferreira

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