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O que as pesquisas revelam sobre o comportamento do consumidor em 2026

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Notícias 30 Dez, 2025
Uma vida mais simples e com bem-estar, mas altamente conectada. IA para aplacar a solidão e expressão máxima da individualidade. Para especialistas, varejistas terão de lidar com paradoxos no próximo ano

O ano de 2025 foi marcado por várias febres de consumo. Os Labubus conquistaram milhões de pessoas em todo o mundo. Ao mesmo tempo, notícias de jovens desabafando e fazendo terapia com inteligência artificial (IA) se multiplicaram. Comportamentos como esses, que surpreenderam muitos, devem se repetir e ficar mais comuns em 2026, segundo os especialistas. É o que revelam pesquisas internacionais recentes, que alertam varejistas para se prepararem para um consumidor cada vez mais cheio de conflitos.

O movimento dos Labubus, por exemplo, ilustra uma das tendências que a rede de agências internacionais Dentsu detectou no relatório “Realidades Generativas”, que ouviu 4,5 mil consumidores de sete países. Além do Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Índia, China, Espanha e Japão. Para os pesquisadores, os consumidores estão recorrendo à fantasia e à “fofura” em diversas categorias para fugir das dificuldades da vida atual. E esse é um movimento que deve se tornar ainda mais presente na sociedade.

“Em um mundo marcado por conflitos e ansiedades cada vez maiores, os consumidores buscam escapar das responsabilidades da vida adulta e da realidade moderna em fantasias, fandoms e bichinhos de pelúcia”, diz o relatório. Isso atinge principalmente pessoas mais jovens, que não acessam conquistas tradicionais, como casa própria e carreira estável, entre outras. A compensação viria pelo conforto que brinquedos e peças colecionáveis trariam.

Cerca de 70% dos pesquisados globalmente responderam que “a vida moderna é tão estressante que algumas vezes eu preciso de uma válvula de escape”. O Brasil esteve entre os países em que esse índice foi um dos mais altos, com 76% de respostas concordando com a afirmação. Entre os consumidores da Geração Z, o percentual é ainda maior, 80%.

Já para 63% de todos os entrevistados, “produtos e embalagens fofos me trazem a alegria que eu tanto preciso”. Na Geração Z, são 77% e, entre os Millennials, 76%.

IA como companheira

As angústias da vida moderna também aparecem em outras descobertas da pesquisa. Isso se traduz especialmente na relação com a tecnologia e a inteligência artificial. Cada vez mais pessoas colocam na IA um papel antes meramente humano, o de confidente. No público geral, 32% afirmaram que “às vezes sinto que meu chatbot de IA me compreende melhor que meus amigos e familiares”. Mas os recortes por faixa etária revelaram um cenário bastante diferente de geração para geração. Enquanto apenas 14% dos Baby Boomers e 26% da Geração X concordam com essa frase, esse número sobe para 46% entre os Millennials e 42% na Geração Z.

Mais da metade dos entrevistados (53%) diz que está usando recursos de IA para questões de sua vida pessoal. No Brasil, o percentual é maior, 64%.

Embora 40% das pessoas que admitiram que usam a tecnologia nesse campo tenham dito que o fazem “para aprender sobre algo específico”, as diferenças entre as faixas etárias estão também muito presentes nesse item. Entre os Boomers, eles são 73%.

Já na Geração Z, 25% usam IA para suporte emocional (“para me ouvir”, “para me guiar”, “para eu me sentir menos sozinho”), contra apenas 8% entre os Boomers. Os Millennials (50% deles), por sua vez, veem mais a tecnologia como um auxílio de parceiro criativo.

Para os coordenadores do estudo, os dados revelam insights de como as empresas devem pensar sua comunicação com os consumidores daqui para a frente. "A inteligência artificial está evoluindo mais rápido do que qualquer tecnologia anterior, mas a criatividade humana permanece constante. As marcas de maior sucesso em 2026 serão aquelas que combinarem inteligência tecnológica com inteligência emocional, unindo eficiência com empatia e inovação com imaginação", afirma Abbey Klaassen, presidente global de marca da Dentsu Creative.

Epidemia de solidão

O estudo revela, no entanto, que o desafio para os varejistas pode ser bastante complexo. O mundo deve continuar vivendo em 2026 uma epidemia de solidão. Entre os entrevistados globalmente, 63% relatam que permanecem longos períodos sozinhos, com a pior situação nos Estados Unidos, em que esse percentual atinge 75%. Entre as faixas etárias, novamente a Geração Z é a que mais concorda com essa afirmação, com 70% das respostas.

Ao mesmo tempo, 38% do total global dizem que ficam sozinhos com bastante frequência. Novamente, os números são maiores nos EUA (41%), no Brasil (46%) e na Geração Z (50%). Para aplacar essa solidão, metade dos entrevistados disse estar interessada em novas maneiras de se socializar (58% na Geração Z).

É aí que surge uma outra informação importante para as empresas. Comunidades baseadas em hobbies e encontros sociais alternativos ganham adeptos, redefinindo a forma como as pessoas passam tempo juntas.

Volta à vida tradicional

Mas, ao mesmo tempo em que a tecnologia está intrínseca na vida das pessoas, elas também estão ansiando cada vez mais fugir dela. O movimento é forte justamente entre as gerações mais jovens, que têm demonstrado um interesse crescente pela estética analógica, como os celulares tradicionais.

Para os pesquisadores, isso reflete um desejo crescente de se desconectar da vida online, com 45% dos consumidores da Geração Z afirmando que o mundo online lhes causa estresse. Esse percentual é cinco pontos maior do que o da população em geral. Já por países, mais uma vez o Brasil tem uma participação elevada, 47%.

A “vida tradicional” ganha adeptos: 75% dos entrevistados afirmam querer passar mais tempo em contato com a natureza e 64% se dizem atraídos por valores e estilo da “vida tradicional”. Na prática, o desejo reflete na alimentação e processos naturais em produtos, além do ressurgimento da espiritualidade e da religião. Os pesquisadores alertam, porém, que isso não significa abandono tecnológico.

“As pessoas anseiam tanto pelo hiper-real quanto pelo artesanal, pelo digital quanto pelo profundamente humano. Aqui reside a tensão e a oportunidade para as marcas, no coração de 2026”, explica Yasu Sasaki, diretor criativo global da Dentsu. “Em meio aos atritos conflitantes, diversos grupos que antes permaneciam invisíveis vieram à tona. Com talentos criativos diversos e apaixonados por várias áreas, venceremos o algoritmo.”

Bem-estar em primeiro lugar

O estresse elevado e, consequentemente, a busca por uma vida mais tranquila e “natural” aparecem fortes também no relatório “Principais tendências globais de consumo para 2026”, divulgado pela empresa de análise de dados Euromonitor. Os níveis moderados a extremos de estresse diário foram relatados por 58% dos entrevistados.

De acordo com o documento, o desejo pelo conforto e por coisas mais simples em um contexto global muito volátil é importante. A pressão da vida moderna leva as pessoas a buscarem segurança no que consomem, além de ingredientes naturais e saudáveis.

Os resultados revelam um hiperfoco no bem-estar, desejo por embasamento científico nas mercadorias adquiridas e aceitação. Metade dos consumidores ouvidos quer produtos e serviços feitos sob medida para eles.

“O futuro do comportamento do consumidor é caracterizado por um desejo por mais conforto, espaço para expressar sua individualidade e soluções para se sentir bem, muito impulsionado por uma procura pela autenticidade e simplicidade em um mundo cada vez mais complexo”, conclui Alison Angus, head de inovação da Euromonitor International.

 

 

Fonte: Estela Cangerana, Diário do Comércio    Foto: Imagem Freepik

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