Para Kênia Cristina Borges Vissoso e Leonardo Rocha Vissoso, o café sempre esteve muito mais próximo de uma história de família do que de um simples produto. Foi dessa relação construída ao longo de gerações que nasceu, há cerca de seis meses, o Café Benevitta, marca de Ribeirão Corrente que aposta no café especial como forma de valorizar a produção regional e, ao mesmo tempo, convidar as pessoas a desacelerar.
A história começa com o avô de Leonardo, Antônio Alves, conhecido como Gardino. Aos sete anos, depois de perder o pai, ele começou a trabalhar na lavoura para ajudar a sustentar a mãe e as irmãs. Anos mais tarde, comprou a primeira propriedade da família, trocando-a por duas mulas e uma charrete.
O café acompanhou essa trajetória e passou de geração em geração. Hoje, Leonardo e os primos representam a terceira geração da família dedicada à cultura.
“Meu avô já trabalhava com café há cerca de 50 anos. Ele pegou bem no começo da onda do café na cidade”, conta Leonardo.
Durante muitos anos, a família produziu café e outras culturas, mas, conforme a atividade cafeeira se consolidou na região, a produção foi ampliada. A busca por cafés de maior qualidade começou a ganhar força em 2019, quando a família investiu em um terreiro suspenso e passou a experimentar processos voltados ao café especial.
O resultado foi uma bebida de qualidade, mas o mercado brasileiro ainda era pequeno e a comercialização se mostrou difícil. Com a pandemia e o nascimento dos filhos, o projeto acabou sendo colocado em pausa.
A ideia voltou alguns anos depois, impulsionada pela reação de amigos que provaram o café produzido pela família. Alguns chegaram a pedir o produto de outros estados, como Santa Catarina.
Foi então que Kênia e Leonardo decidiram transformar a produção em uma marca própria.
“Quando a gente começou a conhecer mais o café especial, vimos uma possibilidade de consolidar o trabalho que já fazemos no campo, valorizar o que a propriedade produz e, principalmente, valorizar a nossa região”, explica Leonardo.


Uma pausa em meio à correria
O nome Benevitta traduz um dos principais conceitos da marca: a ideia de “boa vida”, de bem viver e aproveitar os momentos simples.
Para Kênia, a proposta nasceu também de uma reflexão sobre a rotina cada vez mais acelerada. Depois do nascimento dos filhos, ela passou a pensar em como criar uma marca que estimulasse as pessoas a parar por alguns minutos.
“O mundo está muito corrido. Eu queria fazer uma marca que trouxesse isso, que tivesse para você parar e ter o seu ritual de desacelerar. O café pauta muito isso: a pausa, a conversa, os momentos em família”, afirma.
A inspiração está no café de vó, nas conversas ao redor da mesa e nos encontros que ganham alguns minutos a mais quando existe uma xícara por perto.
A proposta também é levar os filhos para perto dessa história. Kênia e Leonardo querem que eles cresçam conhecendo a cultura do café e entendendo o trabalho que existe por trás de cada produto.
Essa ligação com a família também passa pela avó de Leonardo, Gercina Nozela Vissoso, lembrada como um dos grandes exemplos de trabalho e dedicação. Enquanto o marido tinha um perfil mais empreendedor, ela era presença constante na lavoura, inclusive levando os filhos para perto enquanto trabalhava.

Do campo da região para outras mesas
Atualmente, cerca de 10% da produção da família é destinada aos cafés especiais. Os lotes podem apresentar diferentes características sensoriais, influenciadas pelo terroir, pelo clima, pelo solo e pelos processos utilizados.
Para Leonardo, um dos objetivos da Benevitta é justamente mostrar que a região tem cafés de alta qualidade e merece ser mais conhecida pelos consumidores.
“Tem muita gente daqui que ainda não sabe o que é a Alta Mogiana como região cafeeira, produtora e referência de qualidade no mundo. O brasileiro conhece muito menos o que tem do que o pessoal de fora”, afirma.
A marca já participou de eventos e encontros de cafés especiais na região e começa a ampliar sua presença. A comercialização hoje acontece principalmente pelas redes sociais, enquanto a família trabalha na estruturação do site e em parcerias com cafeterias.
O café já chegou a consumidores de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, e a intenção é levar a Benevitta para outras partes do país.
No futuro, a família também pretende aproximar ainda mais o consumidor da origem do produto, com a possibilidade de participar de uma rota turística do café e receber visitantes na propriedade para conhecer os pés de café, a colheita e os processos que levam o grão até a xícara.

Carolina Ribeiro/Portal ACIF Fotos: Wilker Maia/ACIF
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