Lembrando o grande poeta Mário Quintana, ultimamente tenho “jogado pelo caminho a casca dourada e inútil das minhas horas” pensando muito no que seria exatamente essa questão da sorte. Isso mesmo, a “sorte”! Fico olhando o que acontece com empresas e pessoas e me questionando se realmente alguns são sortudos e outros azarados. Será que essa tal de sorte vem mesmo de forma aleatória para alguns e acaba se esquecendo dos outros?
Na minha experiência de Sebrae, ainda fico questionando o alto índice de fechamento das micro e pequenas empresas, a despeito das inúmeras dificuldades vivenciadas por esses empresários, que precisam matar não apenas um, mas vários leões por dia, sem contar aquele da Receita, um dos mais ferozes do mundo.
Mas, gosto também de pensar nas pessoas. Olhando para mim mesmo com um certo distanciamento, fico pensando se tive (ou tenho) sorte na vida, se ela caminhou a meu lado em tudo o que construí até agora. Olhando para os outros, acabo, querendo ou não, julgando alguns como sortudos, outros nem tanto e muitos com um pouco mais de dificuldade de se aproximar dessa tão querida e desejada sorte.
Porém, em uma noite de leitura solta e sem grandes finalidades, encontrei uma frase de Sêneca que sossegou essa minha inquietação filosófica: “a sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade”. Depois disso, minhas reflexões se acomodaram. A sorte seria apenas um comprimidinho rápido para ajudar a curar nossas dores. O remédio maior seria a nossa própria vontade e determinação.
E não era para ser diferente. Depois dessa frase, me pareceu óbvio que a sorte caminha solta nesse universo maluco, nessa fantástica e inquietante harmonia de contrários. Ela estaria disponível para todos, mas não determinada ou dividida igualmente, com data marcada para encontrar seus “sorteados”.
De acordo com Sêneca, as conquistas dependem mais da preparação constante, da atitude, da persistência e da observação de contextos, com suas oportunidades e ameaças, do que apenas e meramente do acaso. Ao fazer essa relação, o filósofo desloca o foco do acaso e do imprevisível para atitudes que dependem exclusivamente de nós mesmos, como o estudo, a busca e a prática.
Não que o contexto, o acaso e o imprevisível não sejam relevantes, ao contrário, como dito acima, o universo é uma harmonia de contrários e ele não está a nossa disposição. Não temos controle sobre o mundo que nos cerca e muitas vezes somos atropelados pelo imprevisível. Porém, é justamente por isso que deveríamos estar atentos a esses cenários e em constante capacitação para conseguir enxergá-los no momento oportuno, antes que eles se concretizem ao redor de nossas vidas.
Se lembrarmos da pandemia, um imprevisto terrível para a humanidade, vamos perceber que muitos conseguiram se adiantar, perceber rapidamente os novos cenários e se reinventar diante desse acaso, enquanto outros ficaram apenas a lamentar a falta de sorte.
Dentro dessa visão, a tão sonhada sorte deixa de ser um acontecimento único, um privilégio misterioso e passa a ser entendida como resultado de um esforço pessoal ou empresarial que precedeu esse momento e foi fundamental para aproveitar essas circunstâncias favoráveis. Ou seja, o acaso e a sorte continuam existindo, mas influenciados pelo nível de preparo das pessoas e/ou empresas.
No dia a dia, podemos aplicar essa ideia de Sêneca em decisões de carreira, negócios, estudos e muitas outras situações de nossa vida cotidiana. A questão é olhar os novos contextos com um “olhar estrangeiro”, tentando perceber qual seria o preparo adequado para aproveitar as novas oportunidades.
De forma geral, isso incluiria um direcionamento de esforços com foco em algumas práticas importantes para estruturar essa preparação e aumentar as chances de aproveitar essas situações que surgem de forma inesperada, tanto para as empresas como para as pessoas, sejam elas empresárias ou simples empreendedoras:
Em cenários de rápidas transformações, mudar essa nossa percepção sobre sorte e acaso torna-se imprescindível para o crescimento e amadurecimento de empresas e pessoas. Como disse Alvim Toffler, “os analfabetos do século 21 não serão aqueles que não sabem ler e escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender e reaprender”.
A sorte e o acaso serão aqueles momentos inesperados que a despeito do medo e do susto que nos causarão, serão considerados um complemento ao nosso estado de preparação. Seriam apenas algo que já estávamos prevendo, ou até mesmo esperando.
De qualquer forma, peço licença a vocês para finalizar esse artigo porque já são quase 19h e a lotérica vai fechar. Mesmo acreditando mais no preparo que na sorte, não posso deixar de buscá-la nessa semana... a Megasena está acumulada... quem sabe...
Maurício Buffa - Consultor de Negócios do Sebrae-SP em Franca